Se estivesse vivo, Vitalino Pereira dos Santos, ou melhor, o
ilustre Mestre Vitalino, completaria hoje 100
anos, porém, mesmo já
não estando mais entre os seus, o grande Mestre Vitalino construiu
uma belissíma história de conquista, de força e de dedicação.
Em 10 de Julho de 1909, nascia no Sítio Campos, nas
proximidades do Murici, zona Rural de
Caruaru, o menino que
mudaria história da cultura de uma cidade. Cresceu diante de
muitas dificuldades, filho de
agricultor, Marcelino Pereira dos Santos, e
da louceira, Josefa Maria da Conceição, começou a criar bonecos
com seis anos de idade e em suas obras, retratava a dura vida
do homem nordestino, mas a sua especialidade eram cavalos e bois,
ainda pequeno aproveitava as sobras de barro da louça de sua mãe e ia fazer bonecos para brincar.
Porém, foi mesmo com seis anos de idade que Vitalino desenvolveu sua primeira obra, a ser reconhecida, "A principio um gato
marajá trepado em um pé de coco, com dois cachorros
acuando o felino e um caçador apontando sua espingarda." descreveu o Jornal Vanguarda.
A família do Mestre Vitalino tirava sustento das peças de barros que Dona Josefa produzia e também da lavoura, quem ficava encarregado de vender as peças de barro na feira era o Seu Marcelino, que um dia levou os bois e cavalos do pequeno Vitalino. Foi surpreendente quando uma mulher ficou admirada e pagou alguns réis a mais e ainda encomendou algumas peças já para outra semana. Nascia
ali a vida artística de um homem que mudaria a história de uma cidade e com o seu trabalho valorizaria e daria nome e fama, a feira de
Caruaru.
Em 1948, Vitalino mudou-se para o Alto do Moura com sua esposa, Dona Joaninha com quem era casado desde 1931, e seus seis filhos: Amaro,
Manoel, Severino,
Antônio, Maria e Maria José.
Um ano depois (1949) Vitalino já era manchete por causa de sua obra tão autêntica e original, "O sucesso está na qualidade do barro, na secagem e na temperatura do forno." destacou o Mestre em resposta e contradição a revista Cruzeiro que afirmou que o sucesso da arte e dos bonecos estava na lua, Vitalino sempre muito religioso negou o fato e a resposta foi publicada na revista Agreste, em reportagem assinada por
Antonio Miranda e fotos de Paulo Santos.
"Aprendi a fazer os bonecos ainda criança. Comecei pelos cavalinhos,
calungas e alguns bichos. Mas fazia bonecos para brincar e sem ninguém para me ensinar. Pelo contrário, às vezes meu pai reclamava porque eu ficava muito tempo à beira do rio e com o barro na mão.", disse Vitalino à revista Cruzeiro (Dezembro de 1948).
Deu referência ao Alto do Moura e até foi homenageado e retratado na peça "O ato das sete luas de barro" do
Diretor Vital Santos, que além de narrar muito bem a história e o desenvolvimento do barro, mostrou a humildade e a tranquilidade do Mestre "
Diz a peça que, com ar de preocupação,
Galdino, isso mesmo, o Mestre
Galdino, chega à casa de Vitalino e diz: 'Mestre, mestre, está todo mundo na vila querendo fazer boneco de barro.' Tranquilo, Vitalino responde: 'Deixa pra lá
Galdino. Eles também tem
família para criar. Copiar também é meio de vida.'
Ficção a parte, Vitalino era assim mesmo. Um bom sujeito, acima de coisas pequenas e que não fazia questão por nada. Em nenhuma de suas
viagens ao Rio ou à
Brasília, nunca trouxe ganhos financeiros. Sua principal preocupação era divulgar a arte em barro." enfatizou o Jornal Vanguarda.
Vitalino foi longe, muito longe com sua arte, virou manchete de jornal e revista, peça de teatro e construiu a história de dignidade do Mestre Vitalino. Conhecer o Agreste
Pernambucano e não conhecer o que foi e quem foi o Mestre do barro é deixar pela metade a história de verdade, é como tirar a foto mais bonita e não colocar na moldura.
Exemplo de Pai,
preocupado sempre com o bem-estar de todos em casa, exemplo de Filho, de Irmão, de Amigo e ainda mais de Trabalhador.
Faleceu em 1963, com a suspeita de Varíola, em uma cama de colchão de capim e sem ajuda de seus amigos que evitaram a visita para não contrair a doença. "Vitalino não morreu de varíola.
Disseram que era varíola, mas não era. Não houve exame. Eles (os médicos) assinaram daquela forma porque todo mundo dizia, mas ele nem sequer chegou a ser examinado por um médico legista.", defendeu o ex-prefeito e Amigo Anastácio Rodrigues. "Ninguém veio ver meu pai. Inclusive foi tudo muito rápido. Ele morreu de manhã, entre nove e dez horas, e, à tarde, foi sepultado. Acho que era em torno de quatro da tarde. Não deu tempo para nada." afirma Severino Pereira dos Santos, que ainda hoje segue o estilo do pai e quem cuida da Casa Museu Mestre Vitalino e onde produz também seus bonecos.
Com apenas 54 anos o Mestre Vitalino valorizou uma geração, deu destaque a uma simples feira e ainda deixou grandes lições de dignidade e força.
"Enquanto sua mãe trabalhava o barro
em vasos para vender na feira,
a nossa Feira,
O menino brincava o barro,
tendo nas mãos a vida,
a nossa vida.
Eis a maestria vital do menino:
modelar o sertão agreste, em que vivia
e o ser tão agreste, com quem vivia.
Com essa maestria, o nome do menino
é sinfonia que dá arte a essa vida.
Eu ouvi tal hino:
Vitalino, o Mestre."
Danielle Marinho